Nossa Voz

Em 2014, o Nossa Voz realizou três edições com a participação de 7 artistas convidados para o projeto de relançamento do jornal. Cada artista propôs uma ação pelo bairro do Bom Retiro. Essas ações eram anunciadas e discutidas no espaço do jornal e geraram uma programação aberta ao público. Para ler mais sobre as ações de cada artista relatadas no jornal, clique aqui.

Doris Criolla
Amilcar Parker 

Doris Criolla é uma pesquisa que parte da etimologia e dos usos históricos das palavras sinônimas crioulo, criollo e créole, bem como uma experimentação relacionada às implicações e potências destes termos como ferramenta para pensar a complexidade de processos políticos, sociais e culturais, que partem de contextos coloniais, racistas e escravagists, mas que também apontam para fenômenos de emancipação, apropriação, invenção e empoderamento, e que estão que estão presentes nas diversas línguas e cozinhas crioulas.
Ao todo foram 7 jantares/encontros que aconteceram na Oficina Cultural Oswald de Andrade, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Restaurante La Latja (Bom Retiro) e na Casa do Povo.

Nossa Ch’alla
Bernardo Zabalaga

A ch’alla, constitui-se como um ato de reciprocidade com Pachamama (deidade máxima de culturas andinas, relacionada à terra, à fertilidade e ao feminino – a representação de uma entidade “Terra“ que está viva e em contato com todos os seres). Ela baseia-se no gesto de regar a terra ou outros bens com álcool e elementos simbólicos, em agradecimento ao que foi alcançado. Existem variações de como executá-la: no campo, pode-se cobrir a terra com pétalas de flores e enterrar uma panela de batatas cozidas, cigarros, folhas de coca e álcool para alimentar Pachamama. Na cidade, normalmente decora-se um imóvel com flâmulas coloridas, pulverizando álcool, sementes, pétalas de flores e doces distribuídos pelos cantos de onde se realiza o ritual. Esses procedimentos são sempre acompanhados de uma festa regada a bebida, comida, música e dança, e todos que participam ofertam e agradecem, reforçando assim um pedido de prosperidade. A ch’alla é um ato de reciprocidade e alegria pelo que nos é dado e conquistado, pelo que nos é permitido ser e ter, nas esferas individuais e também coletivas.

Pautada nesta tradição andina – e buscando atualizá-la artisticamente –, Nossa Ch’alla encontrou inicialmente certa resistência de alguns membros do conselho da Casa do Povo. Parecia ser uma atividade demasiada religiosa e folclórica para cumprir o objetivo de ser a primeira ação do projeto Nossa Voz a refundar metaforicamente Casa do Povo. 

Ao final, a ação de Bernardo e de todos os que participaram desse singelo, porém poderoso ato, serviu não apenas para trazer “boas energias“ à Casa do Povo, mas para nos reconectar ao local, ao bairro, e às suas histórias. Foi o momento de encontrar antigos lugares e novos amigos. Nossa Ch’alla ativou novamente a Casa do Povo dentro de uma micropolítica pautada nas dinâmicas do local e, ainda que por uma noite, acionou a energia de todos como um grande corpo social e coletivo em festa. A ação também permitiu aos outros que vivem no bairro adentrarem e conhecerem o edifício. 

TEATIME
Kuk Jae Shin e Bong Sook Koh 

짓다 (Jit-Ta); Poesia e Teatime
A ação sugere um encontro do público com a língua e a tradição coreana. Em um contexto que remete às habituais cerimônias do chá, os artistas propõem que os participantes traduzam poemas coreanos com o auxílio de mediadores que falem a língua. 

Museu Impossível das Coisas Vivas
Beto Shwafaty 

O projeto refere-se a um museu (temporário e ficcional) no qual o artista busca reunir artefatos, objetos, lugares, histórias (e estórias) sobre diversos contextos nos quais o museu é chamado a atuar.
No caso do Bom Retiro, os ciclos socioculturais e históricos que impregnam a vida física e material do bairro tornam-se o ponto de partida para os trabalhos museológicos. Baseados em constantes ondas de imigração e comércio, esses ciclos socioculturais e políticos que compõem a vida do Bom Retiro são responsáveis por diversas mudanças, assim como pelos desenvolvimentos e decorrentes problemas que se encontram hoje nessa localidade.

Uma pesquisa de opinião foi realizada nas ruas do Bom Retiro, a fim de levantar opiniões sobre diversos aspectos do mesmo. Foram abordadas pessoas que vivem, trabalham e frequentam o bairro. Essa pesquisa teve, assim, o intuito de auxiliar os envolvidos no projeto Museu Impossível das Coisas Vivas a desenvolver certas linhas de trabalho desse museu e em relação aos contextos do bairro.

Um museu que existe nas relações entre sujeitos e objetos.
Um museu denominado a partir de situações, lugares e histórias.
Um museu para tornar certas coisas vivas.

Xepa na Coruja
Coletivo Voodoohop

Entre os meses de outubro e novembro de 2014, o coletivo de artistas Voodoohop realizou uma série de oficinas na Oficina Cultural Oswald de Andrade com o objetivo de preparar uma intervenção na feira livre da Rua Antônio Coruja, que acontece todas as quintas- feiras no Bom Retiro.

Após as três semanas de oficinas, o coletivo, junto com o artista Pedro Wirz, realiza no dia 20 de novembro a ação “Xepa na Coruja”. Ao longo de quatro horas, os artistas e os participantes das oficinas se incorporam à dinâmica da feira, dialogando com os feirantes e com seus frequentadores.

O projeto de relançamento do jornal Nossa Voz foi contemplado pelo PROAC Espaços Independentes 2014.